sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Borboletas no escafandro


As últimas palavras soam como uma mudança dentro de mim, fecho o livro.
Lanço um olhar em direção ao horizonte, maneio com a cabeça e ergo levemente o meu nariz para inspirar um pouco mais de ar. Este ar que vem de longas distâncias, querendo me contar histórias. Pareço empreender uma viagem virtual por lugares jamais visitados; universos paralelos que trazem sensações indefinidas de tempo e espaço. Nesse momento questiono a matéria de que somos feitos. Faço uma parada rápida pelas estações da minha vida, reporto-me as imagens em minha mente e vejo pessoas; rostos estranhos; vejo lugares das quais não me recordo. Um ir e vir acelerado de imagens em todas as direções. Imagens do meu cotidiano, registradas em minha memória e captadas muitas vezes sem consciência. Por um segundo, volto meus olhos para o livro que acabo de encerrar. Reabro suas
páginas em minha mente e me pego passeando por entre as palavras soltas dentro da minha cabeça. Ao longe ouço o eco das lembranças de Jean Dominique Bauby *. Alguém que jamais conheci e jamais conhecerei, ao menos não por estas paragens, mas que ficou em mim registrado. Folheio sua intimidade, palavras surgem e percebo que fincaram raízes fundas na minha própria humanidade. Avanço em suas passagens e quase que vejo sua vida desfilando na tela da minha imaginação. Relembro os relatos, sua experiência transformada em livro já no seu estado permanente, ao menos enquanto corpo, de desbravador dos oceanos em seu escafandro particular; renascendo todos os dias para um novo olhar através do único contato com o exterior: o seu olho esquerdo. E dessa única janela para o mundo foi adentrando nas emoções da própria existência. Transformar dor em poesia, não diminui a dor, mas talvez ajude a descongelar o coração.

Precisamos chegar a extremos para parar e olhar a vida além da pele que a cobre diariamente? O retrato das nossas vidas olhadas a distância, em sua maioria é constituída de pessoas perdidas em ações automáticas, que não envolvem apenas trabalho, mas também corações. Acostumamos com tudo, tudo passa a ser rotina, seja o caminho para o trabalho, os colegas, o companheiro (a), os filhos, a família. Tudo é visto como um quadro em uma parede, por onde passamos todos os dias e onde vemos sempre a mesma paisagem. Não parece haver encanto na vida da maioria das pessoas do século XXI. Ou talvez estejamos vivendo demais em função de uma fantasia, assoberbados na busca por status e aceitação social. Até que um dia, somos atropelados por circunstâncias fora do nosso controle. O quadro da parede mudou, ou foi abruptamente arrancado sem aviso, de onde estava. Uma perna quebrada; uma perda emocional ou material; um desemprego ou, às vezes, algo mais grave. Mas tem gente que mesmo nesses instantes, jamais consegue esse olhar além. Alguns dizem que é tudo bobagem, e a vida é apenas o que se pode ver. Muitos de nós vêem apenas o que está ao alcance dos olhos. Mas existem outros tipos de percepções que podemos alcançar, se silenciarmos um pouco o nosso tempo pessoal e nos alinharmos com a vida além da matéria.
Bauby parece que conseguiu ver algo mais nessa viagem inesperada para o seu mundo interior. Um observador atento das atitudes humanas, sem interferências. Lembrando das coisas que por estarem conosco todos os dias, acreditamos que todos os dias ali estarão. E sem uma resposta digna de calar-nos a boca, descobrimos mais cedo ou mais tarde, que tudo muda o tempo todo para todo o mundo, inclusive para nós. Deveríamos encarar nossos dias como uma viagem, repleta de oportunidades a serem exploradas; pessoas interessantes para conhecer; lugares. Nossas mentes estão sempre tão ocupadas com tantas coisas. Perdemos momentos preciosos que não se repetirão jamais, justamente por acreditarmos que eles sempre estarão lá, mas o sempre, só existe nos livros. Assim como Bauby muitas pessoas vivenciaram experiências dolorosas, mas cada uma fez uso da sua segundo a sua natureza. Ele, escreveu um livro e o transformou em vivência compartilhada. Ele poderia ser qualquer um de nós, um parente, um amigo, um conhecido distante. E ele foi tudo isso de algumas pessoas com quem compartilhou sua vida.Se apetecer, faça essa viagem com ele em seu escafandro, pode ser que ele entre em sua vida para ficar, e quem sabe depois disso você entenda o significado da borboleta. * Jean Dominique Baubi Editor da revista Elle francesa sofreu um derrame cerebral que resultou na perda dos movimentos do corpo, com exceção do olho esquerdo.



Por Rosana Sidom - Astróloga e Terapeuta Vibracional


Livro: O escafandro e a borboleta Bauby, Jean-dominique Editora: WMF Martins Fontes
Filme: O Escafandro e a Borboleta (Scaphandre et le Papillon, Le, 2007)

» Direção: Julian Schnabel

» Roteiro: Jean-Dominique Bauby (romance), Ronald Harwood (roteiro) » Gênero: Biografia/Drama » Origem: Estados Unidos/França
» Duração: 112 minutos

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Somos todos Heróis.

A grande corrida para chegar ao podium da Casa Branca, acabou. As eleições revelaram algumas mudanças em uma sociedade, até então, conservadora. O mundo aplaudiu de pé e participou ativamente desse momento histórico. Uma imagem forte e indelével para os olhos de quem viu a distância, a posse do novo presidente dos Estados Unidos da América. Um presidente de mudanças a começar pela cor da pele, ponto focal de que algo aconteceu nesse país de tantas diferenças. Uma verdadeira comoção nacional, que se estendeu por todo o globo.

Barack Hussein Obama, até então pouco conhecido, tornou-se o centro das atenções. Detentor de uma responsabilidade que abarca não somente o seu povo, mas se estende por todos os continentes, na era da globalização. Um homem multirracial, representante legal das etnias que correm em suas veias, e das muitas etnias que se misturaram nos últimos séculos, neste continente chamado América. Assumiu o seu cargo como um lugar que já lhe pertencesse há muito, com a desenvoltura de um líder. Uma postura de quem nasceu sob os auspícios de um sol no signo de Leão. Falou aos seus sem tropeços, proclamando em voz firme o discurso de quem sabe o que quer, empunhando já nos primeiros tempos a bandeira da mudança e arregaçando as mangas para ela. Carismático e inteligente, conquistou muitos com a sua presença marcante pelos quatro cantos do planeta. Ao longo dos seus poucos dias de mandato tem atuado de forma determinada em direção às suas propostas, quer isso agrade ou não, àqueles que não compartilham dos seus ideais.

E muitas esperanças nascem a partir desse símbolo de poder, representado por um homem. Um homem pode muito, mas não pode sozinho. Essa transformação social não pode vir de um único individuo, nem que ele o quisesse. Para que haja uma mudança de verdade, ele deve ter ao seu lado pessoas caminhando em uma mesma direção. O mito do Herói prevê um salvador, que irá varrer para longe todos os pesadelos que assombram nossas noites mal dormidas. Queremos proteção, segurança, bem estar, paz para o corpo e para a alma. Ficamos a espera que alguém faça isso por nós, como um pai que limpa todas as barras. Muitas vezes, recusamos assumir a nossa parte nesta empreitada para melhorar o mundo. Mas o mundo necessita de todos nós e não temos como nos furtar disso. É preciso assumir o quinhão que nos cabe no contexto social em que vivemos, comprometendo-nos com nossas ações e o reflexo de cada uma delas.

A transformação social só pode acontecer através do envolvimento de todos os indivíduos que compõem uma sociedade. Quando um indivíduo promove mudanças em sua vida, estas naturalmente se estendem a todo o grupo. E essa é uma roda que tanto pode girar para cima, como para baixo. Estamos perdendo a consciência social e vivendo em um mundo de interesses particulares. Uma sociedade ajustada é aquela que trabalha em união com toda a gente, propiciando o desenvolvimento de todos, criando bons cidadãos. Como disse Gandhi: “Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”. Esperamos que o mundo mude para melhor, mas o que fazemos de fato para que isso aconteça? E muitas vozes ecoarão: Mas não posso mudar o mundo sozinho. E eu posso responder-lhe que, se você mudar o seu mundo, mesmo que ele se restrinja a um pequeno número de pessoas, já estará fazendo o suficiente, pois você é parte integrante de uma rede que se expande infinitamente.

Talvez Obama se torne um modelo a ser seguido, quanto a isso, somente o futuro poderá responder. Mas não podemos negar que deixa uma primeira boa impressão, ao menos para mim. E que possamos nos inspirar nesse sentimento que ficou, e trazê-lo para o nosso dia-a-dia. Por isso, que cada um de início aos seus próprios mandatos, com propostas consistentes de melhoria; promovendo transformações positivas para nós e para a sociedade da qual somos parte integrante. Que possamos nos espelhar em boas ações e cometê-las. O bom exemplo sempre inibe os maus, e gera frutos positivos. O mundo nada mais é do que um reflexo de nós mesmos; nossas guerras pessoais; nossos conflitos internos, portanto não reclame se ele não lhe parecer tão bom quanto gostaria. Pense sobre isso e no quanto as suas atitudes, por menores que sejam, reverberam pelo espaço em que você habita. Por isso perceba o quanto você é importante nessa engrenagem que pode transformar o mundo. Somos todos, Heróis. Aproveitemos à deixa e nos espelhemos no desejo de mudança. Vamos hastear essa bandeira em prol do crescimento pessoal e social, fazendo a nossa parte. Quem sabe assim possamos entregar o nosso planeta melhor do que o recebemos, para as futuras gerações.



Por Rosana Sidom - Astróloga e Terapeuta Vibracional